Tradicionalmente, as apresentações da Chanel costumam ser finalizadas com um deslumbrante vestido de noiva. No entanto, em uma ousada reviravolta, Matthieu Blazy, o novo diretor criativo, optou por encerrar sua coleção de outono com um vestido preto – o famoso LBD. Há um século, Gabrielle “Coco” Chanel apresentava o que foi considerado o primeiro vestido preto, uma peça de manga longa que caía logo abaixo dos joelhos. A imprensa da época comparou essa inovação ao Ford Model T: prático, elegante e acessível a todas. O LBD, uma espécie de smoking feminino, transformou o preto de um símbolo de luto para um emblema de luxo discreto.


Cem anos depois, Blazy viu essa escolha como uma homenagem ao legado de Chanel, uma mulher cuja moda sempre serviu a sua essência, e não o contrário. O conceito do “vestido da vingança” está intimamente ligado ao icônico LBD usado pela Princesa Diana em 1994, após a admissão pública de traição de Prince Charles. Contudo, essa é apenas uma das muitas interpretações de como o vestido preto conquistou seu espaço no armário feminino. Lembremos do elegante vestido de Givenchy que Audrey Hepburn usou em ‘Bonequinha de Luxo’, da deslumbrante Anita Ekberg em ‘A Doce Vida’, ou dos simples vestidos de Carolyn Bessette Kennedy, e até do ousado Versace de Elizabeth Hurley, preso por alfinetes.



Desde sua invenção, o vestido preto se mostrou luxuoso, prático, erótico, purista e até andrógino. É raro encontrar uma mulher que não tenha pelo menos um exemplar em seu guarda-roupa. O LBD se tornou um símbolo da vestimenta que transita do dia para a noite, onde, com um simples par de saltos, você está pronta para qualquer evento.


A Influência do Vestido Preto na Moda
Para entender a profundidade dessa peça icônica, conversamos com estilistas, escritores e historiadores que ajudaram a contextualizar sua influência ao longo do tempo. Carla Sozzani, cofundadora da Azzedine Alaïa Foundation, destaca que os anos 1920 foram marcados por decoração e cores vibrantes, tornando o vestido preto uma escolha ousada e não convencional. Embora Chanel tenha sido a responsável por defini-lo, Sozzani menciona Jeanne Paquin como a primeira a utilizar o preto como uma afirmação de moda, e não de luto. Em 1922, Charlotte Révyl criou o vestido preto chamado 'La Garçonne', demonstrando que essa tendência já estava se formando antes de Chanel.



Sunita Kumar Nair, autora de 'Carolyn Bessette Kennedy: A Life in Fashion', argumenta que, embora Chanel tenha se autodenominado a criadora do LBD, Jean Patou também desempenhou um papel crucial na liberdade do vestuário feminino. Ele e Chanel competiam no mundo do sportswear, mas a capacidade de marketing de Chanel a destacou. Nesses tempos, as empregadas e funcionárias usavam preto, e a forma como o LBD retrata as mulheres é, de fato, uma afirmação de sexualidade em contraste com o papel tradicional de esposa.


O estilista Joe McKenna afirma que o vestido de Audrey Hepburn em 'Bonequinha de Luxo' é, indiscutivelmente, o LBD definitivo. Para Sozzani, o vestido preto se torna verdadeiramente icônico quando segue a silhueta feminina, enfatizando que não deve haver excesso de tecido, mas sim uma linha que realce a forma. Narciso Rodriguez se lembra dos filmes italianos, como 'Boccaccio ’70', onde a beleza de Anita Ekberg em 'A Doce Vida' se tornou uma referência eterna. A crítica cultural Robin Givhan complementa dizendo que o LBD é o equivalente feminino do terno escuro, podendo ser tão formal ou casual quanto se deseje, tão pessoal ou anônimo quanto se queira.


