Em um cenário exuberante dentro do Grand Palais, em Paris, Matthieu Blazy convidou seus convidados para um verdadeiro paraíso tropical. Entre vinhedos e plantas que pareciam ganhar vida, o ambiente remeteu a um dos filmes favoritos do designer, Jumanji, onde a natureza toma conta do espaço. Com nuvens pintadas no teto e um centro repleto de hastes verdes que se erguiam como se fossem parte da clássica narrativa de João e o Pé de Feijão, Blazy criou um cenário que evocava a essência mágica dos contos de fadas.
Após se aprofundar em documentários sobre a origem dessas histórias, o designer se sentiu particularmente atraído pelo simbolismo de João e o Pé de Feijão, relacionando-o à trajetória de Gabrielle “Coco” Chanel. Como uma mulher que desafiou as normas de sua época e ascendeu ao estrelato da moda, a história de Coco se entrelaça com a narrativa de crescimento e superação. Em sua visita à biblioteca do apartamento original de Chanel, Blazy se deparou com um livro de contos de fadas que o inspirou a, junto com sua equipe, plantar feijões e acompanhar seu crescimento, registrando texturas e cores.

Contrariando as expectativas de quem esperava um desfile etéreo e inacessível, Blazy abriu a apresentação com uma interpretação leve do clássico terno Chanel. Este modelo, que simbolizou a libertação das mulheres dos espartilhos, apresentava um delicado bordado de pérolas e feijões em um chiffon diáfano, com detalhes assimétricos na barra. A coleção prosseguiu com um vestido sem mangas e uma saia também transparente, adornada com padrões de vinhas e apliques florais, além de trajes em tweed colorido e chiffon pastel.

A ousadia de Blazy se fez presente em cada detalhe, desde sapatos slingbacks decorados com borboletas e gnomos, até minaudières esculpidas em formas inusitadas como feijões e ursos adormecidos. A fusão de referências, como magpies e espantalhos, foi habilmente traduzida em peças de ráfia e pompons coloridos, que refletiam a essência lúdica da coleção. Para completar, músicas icônicas como "Kiss Me" de Sixpence None the Richer e "The Bargain Store" de Dolly Parton embalaram a apresentação, criando uma atmosfera de conto de fadas moderno.
Blazy, em sua abordagem inovadora, trouxe à tona a ideia de que a alta costura não precisa ser apenas um sonho distante. Com looks monocromáticos em preto, que mesclavam elegância com praticidade, ele refletiu sobre a vida cotidiana da mulher moderna. A coleção foi uma ode à aventura do dia a dia, enfatizando que a moda deve ser acessível e relevante, não apenas um espetáculo glamouroso.

O final do desfile trouxe uma reviravolta no tradicional fechamento com a noiva. Embora uma modelo tenha desfilado com um vestido branco etéreo, Blazy optou por encerrar sua narrativa com um vestido preto, de silhueta ajustada e detalhes de franjas, simbolizando uma nova visão de liberdade e empoderamento feminino. O que era um conto de fadas tornou-se uma celebração da mulher contemporânea, que equilibra sonhos e realidades na vida cotidiana.
