Em um universo onde novas vozes são raras, a alta costura se destaca como uma das instituições mais seletivas da moda. A Fédération de la Haute Couture, responsável por esse prestígio, é conhecida por abrigar apenas os grandes nomes do setor, como Chanel, Dior e Balenciaga. Contudo, nesta temporada, o burburinho gira em torno de Standing Ground, a nova marca de Michael Stewart, que fez sua estreia na manhã desta quarta-feira na Embaixada da Irlanda em Paris.
O desfile começou com um visual impactante: uma saia de seda em corte enviesado e um blazer estruturado em um tom sóbrio de cinza. O que inicialmente parecia um acabamento simples logo se revelou uma ousadia: as bordas do blazer estavam adornadas com contas embutidas em um tecido translúcido, uma assinatura que já se tornou característica do designer. À medida que a coleção se desenrolava, surgiram vestidos de jersey drapeados com painéis tonais de contas feitas à mão e vestidos coluna com linhas de perfuração organizadas em um padrão de grade.

A Essência da Criação: Tradição e Inovação
O clímax do desfile trouxe à tona uma série de peças com peitorais moldados, que pareciam quase calcinados, adornados com camadas de tecido que se transformavam em saias fluidas. Quando Stewart, um irlandês de barba bem aparada vestido com um paletó de duas fileiras e calças cáqui, saiu para receber os aplausos, todos se perguntavam sobre o designer que estava conquistando corações logo no início da semana de alta costura.
Nascido e criado no condado de Clare, na costa oeste da Irlanda, Stewart estudou no Royal College of Art, em Londres, onde apresentou sua coleção de graduação em 2017. Desde então, ele se estabeleceu na Inglaterra, dedicando-se a pedidos personalizados até que uma oportunidade no incubador de design Fashion East, que lançou nomes como Jonathan Anderson e Simone Rocha, lhe proporcionou um palco para exibir seu talento nas temporadas de outono e primavera de 2023. Em 2024, ele conquistou o prestigioso Prêmio LVMH.

Apesar do reconhecimento, a Standing Ground se mantém como uma marca intimista, operando a partir de um pequeno ateliê no vibrante centro artístico e de moda de Londres, na 180 Strand. Stewart não se deixa levar por mood boards repletos de fotos de filmes antigos ou desfiles retrô. Ao contrário, ele busca inspiração nas origens do design e em fenômenos naturais, criando algo que parece ao mesmo tempo pré-histórico e vagamente futurista.
Suas criações dialogam com o recente trabalho de Pieter Mulier na Alaïa e evocam a forma como Azzedine Alaïa utilizava tecidos técnicos para interagir com o corpo. Em 2024, ele apresentou seu primeiro desfile solo, mostrando uma coleção de primavera de 2025 que aperfeiçoava os conceitos desenvolvidos na Fashion East. A coleção apresentada hoje não foi uma ruptura radical, mas sim uma evolução do seu ofício, alinhando-se com os objetivos que ele estabeleceu para sua marca.

Diferente da maioria dos contemporâneos no mundo da moda, Stewart optou por um modelo de negócios baseado em pedidos personalizados, cultivando uma base de clientes pequena, mas fiel, através do boca a boca. Embora a Standing Ground tenha uma conta no Instagram, a ausência de um site formal é notável. No entanto, Stewart possui algo especial a oferecer, e parece confiante nesse conhecimento. É seguro afirmar que, em sua jornada, ele está, de fato, mantendo firme sua posição.
